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Aos professores de ED e demais mestres – Spurgeon [2/3]

31 dez

Eliseu não era um homem comum, agora que o Espírito de Deus estava sobre ele, chamando-o para a obra de Deus, e ajudando-o nessa obra. Você também, mestre ansioso, devotado, dedicado à oração, não é mais um homem comum; de modo especial veio a ser o templo do Espírito Santo. Deus habita em seu ser e, pela fé, você ingressou numa carreira de operador de prodígios. Foi enviado ao mundo, não para fazer o que está ao alcance dos homens, mas para fazer aquelas coisas impossíveis que Deus executa por Seu Espírito, empregando como instrumentos os Seus filhos crentes. Você tem de operar milagres, de fazer maravilhas.

 Portanto, ao recordar quem é que opera por intermédio da tua pobre instrumentalidade, não considere a restituição da vida a esses meninos mortos como coisa improvável ou difícil, pois para realizá-la em nome de Deus você foi chamado. “Pois quê? Julga-se coisa incrível entre vós que Deus ressuscite os mortos?”. Ao notar a maldosa frivolidade e a obstinação que se manifestam logo cedo nas suas crianças, a incredulidade vai-lhe sussurrar: “Poderão viver estes ossos?”. Mas a sua resposta deverá ser: “Senhor Jeová, tu o sabes”. Confiando todos os casos às mãos onipotentes, seu dever será profetizar sobre os ossos secos e sobre o vento celeste, e dentro em pouco você também verá no vale da sua visão pessoal a memorável vitória da vida sobre a morte. Assumamos desde já a nossa verdadeira posição, e tratemos de compreendê-la bem. Temos diante de nós meninos mortos, e nossas almas suspiram por trazê-los de volta à vida. Confessamos que toda vivificação há de ser realizada unicamente pelo Senhor, e nossa humilde petição é que, se Ele nos vai usar com relação aos milagres da Sua graça, mostre-nos o que deseja que façamos.Tudo teria corrido bem se Eliseu tivesse lembrado que fora outrora servo de Elias, e se tivesse observado o exemplo do seu amo a fim de imitá-lo. Tivesse feito isso, não teria enviado Geazi com um bordão, mas teria feito logo o que por fim foi constrangido a fazer. No primeiro livro de Reis, capítulo dezessete, acha-se a história de Elias ressuscitando um menino, e se vê aí que Elias, o amo, tinha deixado exemplo completo ao seu servo. E foi só depois de Eliseu o seguir em todos os seus aspectos, que o poder miraculoso se manifestou. Eliseu teria sido sábio, volto a dizer, se desde o início tivesse imitado o exemplo do seu senhor, cujo manto estava usando. Com muito maior ênfase posso dizer-lhes meus conservos, que será bom que nós, como mestres, imitemos ao nosso Senhor — estudando os modos e métodos do nosso Senhor glorificado, e aprendendo aos Seus pés a arte de conquistar almas. Exatamente como Ele, cheio da mais profunda compaixão, entrou em íntimo contato com a nossa desventurada natureza humana, e condescendeu em rebaixar-Se à nossa triste condição, assim devemos aproximar-nos das almas com as quais temos de lidar, compadecer-nos delas com a compaixão de Cristo, e chorar por elas, derramando as Suas lágrimas, se é que desejamos vê-las ressurretas do seu estado de pecado. Somente imitando o espírito e a maneira de ser e de agir do Senhor Jesus ficaremos sabiamente habilitados para ganhar almas para Ele.

Todavia, esquecendo isto, Eliseu quis traçar um curso por si próprio, que exibiria com maior evidencia a sua dignidade profética. Entregou seu bordão a Geazi e mandou que o pusesse sobre a criança, pois achava que o poder divino era tão abundante em sua pessoa que funcionaria de qualquer maneira. Conseqüentemente, a sua presença e os seus esforços pessoais poderiam ser dispensados. O Senhor não pensava assim. Receio que muitas vezes a verdade que transmitimos do púlpito — e sem dúvida se pode dizer o mesmo do que dizemos em nossas classes — é algo alheio a nós, algo que está fora de nós. Como um bordão que levamos na mão, mas que não faz parte de nós. Tomamos a verdade doutrinária ou prática, como Geazi fez com o bordão, e a colocamos sobre o rosto da criança, mas não nos angustiamos por sua alma. Experimentamos esta doutrina e aquela verdade, esta anedota e aquela ilustração, este modo de ensinar uma lição e aquela maneira de entregar uma mensagem — mas a partir do momento em que a verdade que apresentamos seja uma questão alheia a nós mesmos, sem ligação com a parte mais íntima do nosso ser, não terá sobre uma alma morta maior efeito do que o bordão de Eliseu teve no cadáver da criança. Lastimo dizer que muitas vezes preguei o evangelho neste lugar, seguro de que se tratava do evangelho do meu Senhor, o verdadeiro bordão profético e, todavia, sem resultado por não ter pregado com a veemência, com o zelo, com o amor com que devia ter pregado! E não farão vocês a mesma confissão, de que algumas vezes ensinaram a verdade — sim, a verdade, vocês sabem que o era — a pura verdade que encontraram na Bíblia, por vezes tão enriquecedora para as suas próprias almas, sem que, todavia, se seguisse algum bom resultado dela? E isso porque, conquanto tenham pregado a verdade, não experimentaram como tal em seus corações, nem foram compassivos para com o “menino” — a quem a verdade era dirigida, mas agiram à moda de Geazi, colocando com mão indiferente o bordão profético sobre o rosto da criança. Não admira que tenham que dizer com Geazi: “Não despertou o menino”, pois o verdadeiro poder capaz de despertar não achou meio apropriado no seu mortiço modo de ensinar.

Não temos a certeza de que Geazi estivesse convicto de que a criança estava realmente morta. Falou como se ela estivesse apenas dormindo, e precisando ser despertada. Deus não abençoará aqueles mestres que não captam no coração o estado verdadeiramente decaído das crianças às quais ensinam. Se vocês pensam que a criança não é realmente depravada, se vocês favorecem tolas noções sobre a inocência da infância e sobre a dignidade da natureza humana, não deverão ficar surpresos se permanecerem áridos e infrutíferos. Como pode Deus abençoá-los no sentido de realizar uma ressurreição, desde que se fizesse isso por intermédio de vocês, seriam incapazes de perceber a gloriosa natureza desse ato? Se o rapaz tivesse acordado, isso não teria surpreendido a Geazi; pensaria que ele apenas se sobressaltara depois de um sono muito profundo. Se Deus abençoasse com a conversão dos pecadores o testemunho daqueles que não acreditam na depravação total do homem, eles simplesmente diriam: “O evangelho é grande força moralizadora, e exerce a mais benéfica influência”, mas nunca bendiriam e engrandeceriam a graça regeneradora pela qual Aquele que está assentado no trono faz novas todas as coisas.

Observem detidamente o que fez Eliseu quando fracassou em seu primeiro esforço. Quando falhamos numa tentativa, nem por isso devemos abandonar a nossa obra. Irmão ou irmã, se você não tem tido sucesso até agora, não é preciso deduzir que não foi chamado para a obra, como tampouco Eliseu podia ter concluído que não seria possível trazer o menino de volta à vida. A lição advinda do seu insucesso não é: cesse a obra, mas sim, mude o método. O que está fora de lugar não é a pessoa; o plano é que não é sábio. Se você não tem sido capaz de realizar o que pretendia, lembre-se da canção escolar:

“Se falha a primeira vez,
tente outra e repita”.

Entretanto, não repita, usando o mesmo método, a menos que esteja certo de que é o melhor. Se o seu primeiro método não obteve bom êxito, terá que aperfeiçoá-lo. Examine-o até encontrar o ponto em que falhou, e então, mudando o seu modo de agir, ou o seu espírito, o Senhor pode prepará-lo para um grau de utilidade que ultrapassará todas as expectativas. Em vez de perder o ânimo quando viu que o menino despertava, Eliseu cingiu seus lombos e se lançou com maior vigor ao trabalho que o esperava.

Irmãos, notem onde estava colocado o menino morto: “E, chegando Eliseu àquela casa, eis que o menino jazia morto sobre a sua cama”. Esta era a cama que a hospitalidade da sunamita preparara para Eliseu, a famosa cama que, com a mesa, a cadeira e o candeeiro, jamais será esquecida na igreja de Deus. Aquela cama seria usada para uma finalidade em que a boa mulher nem podia pensar quando, por amor ao profeta de Deus, preparou-a para seu repouso. Gosto de imaginar o menino deitado nessa cama, porque ela simboliza o lugar onde hão de jazer os nossos filhinhos não convertidos, se queremos vê-los salvos.

Se havemos de ser uma bênção para eles, devem jazer em nossos corações, devem ser nossa carga dia e noite. Devemos levar conosco os casos deles ao silêncio do nosso leito. Temos que pensar neles nas vigílias da noite, e quando não pudermos dormir por causa da nossa preocupação, é preciso que eles compartilhem nossas ansiedades nas horas tardias. Nossa cama deverá testemunhar nosso clamor: “Oxalá viva Ismael diante de ti! Oxalá os queridos meninos e meninas da minha classe venham a ser filhos do Deus vivente!”. Elias e Eliseu nos ensinam que não devemos colocar o menino longe de nós, fora de casa, ou numa caverna subterrânea de fria negligência, pelo contrário, se queremos devolver-lhe a vida, devemos colocá-lo na mais calorosa compaixão dos nossos corações.

Continuando a leitura, vemos: “Então entrou ele, e fechou a porta sobre eles ambos, e orou ao Senhor”. Agora o profeta se lança de coração ao trabalho, e temos uma excelente oportunidade para aprender dele o segredo da obra de ressuscitar meninos dentre os mortos. Se voltarem à narrativa de Elias, verão que Eliseu adotou o método ortodoxo, o método do seu senhor Elias. Lerão ali: “E ele lhe disse: Dá-me o teu filho. E ele o tomou do seu regaço, e o levou para cima, ao quarto, onde ele mesmo habitava, e o deitou em sua cama. E clamou ao Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, também até a esta viúva, com quem eu moro, afligiste matando-lhe seu filho? Então se mediu sobre o menino três vezes, e clamou ao Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, rogo-te que torne a alma deste menino a entrar nele. E o Senhor ouviu a voz de Elias, e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu”.

O magnífico segredo se encontra, em grande medida, na súplica vigorosa: Eliseu “fechou a porta sobre eles ambos, e orou ao Senhor”. Diz o velho provérbio: “Todo púlpito fiel tem sua base no céu”, significando que o verdadeiro pregador tem muito contato com Deus. Se não rogamos a bênção de Deus, se o alicerce do púlpito não estiver firmado na oração particular, o nosso ministério em público não terá sucesso. Assim se dá com vocês. O poder de todo verdadeiro mestre deve provir do alto. Se não estiverem habituados a entrar em seu quarto, fechando a porta; se não rogarem junto ao trono da misericórdia pela criança que está aos seus cuidados, como poderão esperar que Deus lhes honre com a conversão dela?

Creio que um método excelente é levar as crianças em pessoa, uma por uma, para o gabinete pastoral, e orar com elas. Vê-las-ão convertidas quando Deus lhes capacite a individualizar a situação delas, a agonizar por elas, e a levá-las uma e uma para orar por elas e com elas. Influi muito mais a oração elevada a Deus em particular e só com um menino do que a oração pública pronunciada na sala de aulas. Naturalmente, a influência não é maior com relação a Deus, mas sim com relação à criança. Tal oração muitas vezes se torna na própria resposta desejada, pois Deus, enquanto vocês vão derramando a alma, pode fazer com que a sua oração seja um martelo capaz de quebrantar o coração que meras preleções jamais conseguem tocar. Orem com as crianças separadamente, e isso será instrumento de grande bênção. E se não for possível fazer isso, de qualquer modo é preciso haver oração — muita oração, oração constante, veemente, oração que não aceita resposta negativa, como a de Lutero, a qual ele chamava de bombardeio do céu. Isso equivale a colocar um canhão apontado para as portas do céu para abri-las a tiros, pois assim triunfam na oração os homens fervorosos. Não saiam de diante do propiciatório enquanto não possam bradar com Lutero: “Vici”, ou seja, “Venci, conquistei a bênção pela qual me empenhei”. “…o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele” Mateus 11:12. Elevemos a Deus orações assim, ousadas, que constranjam a Deus e prevaleçam sobre os céus, e o Senhor não permitirá que busquemos Sua face em vão.

Depois de orar, Eliseu adotou os meios apropriados. A oração e os meios devem andar juntos. Meios sem oração — presunção! Oração sem meios — hipocrisia! Ali estava o menino, e diante dele o venerável homem de Deus! Observem o seu singular modo de agir. Inclina-se sobre o cadáver, e põe a boca sobre a do menino. A boca morta e fria da criança recebe o toque dos lábios cheios de calor e vida do profeta, e uma corrente vital de saudável e cálida respiração é enviada através das frígidas e pétreas vias bucais sem vida, percorrendo a garganta e os pulmões. Em seguida, o santo homem, com o amoroso ardor da esperança, coloca os olhos sobre os da criança, e as mãos sobre as dela. As mãos cálidas do ancião cobrem as gélidas mãos da criança morta.

Depois se estende sobre o cadáver e o cobre inteiramente como querendo transmitir sua própria vida ao corpo inanimado, para morrer com ele ou fazê-lo reviver. Ouvi falar de um caçador de camurça que serviu de guia a um medroso viajante. Quando se aproximavam de uma parte perigosa da estrada, o guia se amarrou firmemente ao viajante, e disse: “Ou ambos, ou nenhum de nós”. Isto é: “Ou viveremos os dois, ou nenhum de nós; somos um”. Foi deste modo que o profeta firmou misteriosa união entre si e o menino, e decidiu que, ou ficaria enregelado com a morte do menino, ou o aqueceria com a sua vida. Que nos ensina isto? […]

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